quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Equações Funcionais - Equação de Cauchy

Hoje vamos falar de um dos conceitos primordiais da teoria de Equações Funcionais, que é a equação de Cauchy. De fato, a Equação de Cauchy generaliza o conceito de operador linear: Se T for um operador linear definido na reta com valores reais, então , além de 

Diremos que uma função  é aditiva se ela satisfaz a primeira condição para ser um operador linear, ou seja, se . A esta condição chamaremos condição de Cauchy ou Equação Funcional de Cauchy, ou simplesmente Equação de Cauchy. 

As soluções desta equação são muito interessantes, pois é (muito) fácil ver que  é uma solução, onde c é uma constante. Podemos nos indagar se esta não é a única solução de tal equação. Como veremos adiante, surpreendentemente, isto é falso, e por isso é tão interessante e tao rica a teoria das equações de Cauchy definidas na reta. Mas antes, vamos provar nosso resultado mais básico: 

Proposição 0: Seja f uma função aditiva. Então f é Q-linear, ou seja, f (qx) = qf (x), para todo q racional e todo x real. Em particular, f (q) = q f (1) para todo q racional. 

Demonstração: Da aditividade, vemos que 


Em particular, para n = m e x = y/m, então 


Fazendo y = nz acima, obtemos 


Terminando a prova da Q-linearidade.  

Proposição 1: Seja f aditiva, que não se anula identicamente, e que é também multiplicativa, ou seja, . Então (x) = x para todo x real.

Demonstração: Da multiplicatividade, vemos que f (1) = 1. Como f é Q-linear, então f (q) = q, para todo racional. Basta vermos que f é crescente: De fato, se f for crescente, como Q é denso na reta, então



Assim, vemos que



Como epsilon foi arbitrário, então f (x) é maior ou igual a x. De modo análogo, f (x) é menor ou igual a x

Mas é óbvio que f é crescente: pela aditividade, basta mostrar que f é positiva para positivos, o que sai do fato que f (x²) = f (x)².

Logo, f (x) = x, para todo x real, como desejávamos. 

Até agora, só vimos exemplos de como as coisas podem dar certo quando falamos de equação de Cauchy. Como veremos a seguir, soluções podem ser muito mais estranhas - e em geral são, se assumirmos o Axioma da Escolha. Motivados por isso, vamos relembrar alguns pré-requisitos.

Definição:Uma base para um espaço vetorial (sobre um corpo K) é um conjunto  tal que, para qualquer v no espaço vetorial, existem  em K com 


Fato: Todo espaço vetorial tem uma base (uma prova desse fato, que utiliza o lema de Zorn - equivalente ao Axioma da escolha -, pode ser encontrada aqui). 

Portanto, consideremos a reta R como um espaço vetorial sobre Q. Assim, existe uma Base de Hamel para a reta sobre Q, desde que assumamos o Axioma da Escolha. Logo, seja  uma tal base, e tome uma  g função definida em tal conjunto com valores reais. Definindo 


Então vemos facilmente pela definição de base que f é aditiva, e, por construção, definida em todos os reais. Vê-se (exercício) que f só é contínua se existir c real com 


Basta, então, tomar uma f definida na base que não satisfaça tal propriedade, e obteremos uma solução descontínua para a Equação de Cauchy. Nossos próximos dois resultados nos mostram o quão patológicas são as soluções não-contínuas da Equação de Cauchy:

Teorema 2: Se f é solução não-contínua da Equação de Cauchy, então o conjunto (x, f (x)) (gráfico de ) é um subconjunto denso de R². 

Demonstração: Dado t em R, da condição de descontinuidade, então existe um r real tal que 


Isto significa, porém, que  formam uma base para R² (pois são Linearmente independentes). Logo, seu span é o R² inteiro. Portanto, Q.(t, f (t)) + Q.(r, f (r)) é um conjunto denso no R², e tal conjunto (pela Proposição 0) está no gráfico da f, que conclui a demonstração. 

Corolário 3: Dado qualquer intervalo I de medida positiva (pode ser aberto, fechado, semi-aberto em qualquer direção), então a imagem deste intervalo por uma solução descontínua da Equação de Cauchy é densa na reta. 

Demonstração: Suponha que não; Portanto, existiria [c,d] intervalo que não tem interseção com f (I). Assim, x [c,d] não teria interseção com o gráfico de f, contradizendo a densidade deste último em R². 

Agora que sabemos que, de fato, estudar a equação de Cauchy é interessante, seria conveniente saber quando essa equação se torna contínua. A resposta inclui hipóteses absolutamente gerais: 

Teorema 4: Uma função aditiva  ser contínua é equivalente a 

i) f ser limitada (inferior, superior ou ambos) em algum intervalo limitado. 
ii) f ser monótona. 
iii) f ser localmente integrável. 
iv) f ser diferenciável. 
v) f (x) = cx para todo x real e algum c
vi) f ser mensurável em um conjunto C de medida positiva. 
vii) f ser limitada (inferior, superior ou ambos) em um conjunto C de medida positiva. 
viii) f ser contínua em um ponto dado. 
ix) f (x) ser positiva (ou negativa) para todo x positivo.
x) Existir um conjunto C de medida positiva tal que neste conjunto f é limitada por cima por uma g mensurável. 

Demonstração: Ver exercício 3 abaixo. 

Terminaremos a parte teórica com um caso particular interessante

Problema (Halperin): Dada uma função f aditiva tal que f (1/x) = f (x)/x², f tem de ser contínua?

Resposta: Sim! A prova, surpreendentemente, é bem simples:


 

Porém,


 

Do que fizemos, então, temos que f (x) = f (1) x, como desejávamos. 


Exercícios

1 - Prove que todo espaço vetorial tem uma base, usando o Lema de Zorn: "dado um conjunto parcialmente ordenado  tal que, para todo subconjunto completamente ordenado , este possui uma cota superior . Então S possui ao menos um elemento maximal M, ou seja,  são incomparáveis" 


2 - Prove que f (definida numa base de Hamel e estendida de forma aditiva) só é contínua se valer a condição de 'linearidade' na base de Hamel escolhida. 


3 - Prove o Teorema 4, demonstrando

a) Que f contínua implica cada uma das afirmações (i)-(x). 

b) Por absurdo que f não pode ser descontínua se valerem (i),(ii),(viii) e (ix), estabelecendo, assim, a equivalência com esses itens. 

c) Que (iii) e (iv) implicam (vi)

d) Que se f é limitada em um conjunto de medida positiva C, então
      (d.1) C + C contém um intervalo. (veja aqui como provar) 
      (d.2) (vii) implica (i).

e) Que se f é mensurável em um conjunto C de medida positiva, então existe n tal que

 

tenha medida positiva. Veja então que (vi) implica (vii). 

f) Que se (x) valer, usando a mensurabilidade de g, então vale também (vii). 


4 - Ache todas as   tais que f (x² + f (y)) = y + f (x)², para todos x,y reais. 


5 - Seja f : R uma função que satisfaz a condição de quase-aditividade seguinte: 


f (x + y)² = (f (x) + f (y))² , para todos x,y em R.

Prove que f é aditiva.

Dicas e Sugestões

1 - SV é o espaço, considere o conjunto de subconjuntos linearmente independentes de V, munidos da ordem parcial dada pela inclusão. 

3 - (a) Sabe-se que f é contínua se, e somente se, é como no item (v). Logo, prove que uma função deste item tem todas essas propriedades. 

(b) Use o Teorema 2 e o Corolário 3. 

(d) Veja o problema 3(a) do link. 

(e) Considere a união de tais conjuntos com n variando nos naturais. 

(f) Argumente como em (e), usando g. 

4 - Prove que f (0) = 0, f (-x) = - (x) e que f (x + y) = (x) + f (y) se x > 0. 

5 - Expanda (x + y + z)² de duas maneiras diferentes. 


Referência: 

- KANNAPPAN, Pl. Functional Equations and Inequalities with Applications, First Edition. New York, 2009.  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Polinômios - Divisão e o algoritmo de Briot-Ruffini

Olá pessoal, hoje vou falar sobre divisão de polinômios.

Assim como na divisão Euclidiana, ao dividir "a" por "p" temos a = p.q + r onde r é menor que p

ao dividirmos um polinômio p(x) por outro g(x) temos:  onde  tem grau menor que o de . Escrevendo de outra forma, temos: .

Observe que dados p(x) e h(x) só há 1 par de polinômios h(x) e r(x) que satisfazem com o grau de r(x) menor que o de g(x)- tente demonstrar isso - (a dica é demonstrar por absurdo). Onde p(x) é o dividendo, g(x) é o divisor, h(x) é o coeficiente e r(x) é o resto.

Assim, é conveniente desenvolver um método para achar esses dois polinômios.

O método que todos aprendem na escola é a divisão polinomial. Mostrarei como funciona através de um exemplo.

Suponha que queiramos dividir  por 

Primeiramente coloque-os dispostos da seguinte forma:
Depois, vamos achar o primeiro termo do quociente (h(x)). Ele deve ser tal que ele multiplicado pelo termo de maior grau do divisor resulte no termo de maior grau do dividendo. Nesse caso, é . Então, multiplicamos todo o divisor por esse termo encontrado e subtraímos do dividendo.

Segue as 3 operações feitas na sequência. 

Agora, o próximo termo do quociente é tal que ao ser multiplicado pelo termo de maior grau do divisor dê .
Nesse caso, o termo é . Depois, multiplicamos o termo encontrado () pelo divisor e subtraímos novamente.

Segue os passos descritos.
Agindo da mesma forma que fizemos pra achar os 2 primeiros termos vemos que o próximo é . Segue os passos finais.

Assim, 

Observe que, somando 2x dos dois lados temos: 
Então, as raízes de  são as raízes de  e .

Há uma forma prática de dividir um polinômio por outro da forma g(x)=(x-b).  Esse é o método de Briot-Ruffini, muito usado para testar se "b" é raiz de uma equação.

Primeiramente, vamos dividir um polinômio  por um da forma  e ver o que ocorre em cada passo. 

Abaixo encontrando os 2 primeiros termos teremos

Logo, após encontrar o i-ésimo termo teremos: 


Deixo a demostração disso com o leitor senão o post fica muito extenso. A dica é usar indução (clique aqui para ler sobre o princípio da indução finita) verifique que pra i=1 é verdade e mostre que se vale para i=k então vale para i=k+1 (é só continuar efetuando a divisão).

Então, o resto será .
Observe que se  = 0
então b é raiz de 


O quociente será:  

Observe que o resto dessa divisão é um número e o quociente é um polinômio de grau n-1. Logo, para fazer essa divisão precisamos só obter os coeficientes do quociente e o resto (o que pode ser feito decorando essa fórmula geral que eu mostrei logo acima).  Para isso que serve o algoritmo de Briot-Ruffini. É um jeito fácil de obter esses números sem decorar nada. 

Funciona assim: 
Se quiser dividir  por (x-b), comece da seguinte disposição. 



Observe que se quisermos dividir por (x-b) colocamos b. E do lado os coeficientes do dividendo. Caso algum coeficiente seja nulo, coloque 0.

Repita o primeiro coeficiente do dividendo () multiplique por b e some com . Depois, coloque o resultado dessa soma abaixo de . Multiplique esse resultado por b, some com  e repita logo abaixo de . Seguem os passos descritos.

Observe que esses já são os 3 primeiros termos da divisão. Após encontrar o i-ésimo termo teremos: 


A demostração disso é por indução e é idêntica à anterior. 

Observe que o último termo a ser escrito (abaixo de ) será o resto da divisão. Se este termo for 0, então b é raiz do polinômio original.

Assim, com esse método obteremos os coeficientes do quociente e o resto da divisão de forma mais rápida. 

Ex: Suponha que queiramos dividir  por . Nesse caso temos:

Assim, .

Suponha que quiséssemos dividir   por . Observe que  e -1 e 1 são raízes de . Assim, podemos dividir  por (x+1) e depois dividir por (x-1) 

Temos: 

Logo, 

Observe que só pudemos fazer isso por que são ambas raízes de .

Bem, por hoje é só. Para fixar o conteúdo vale a pena fazer algumas divisões com polinômios aleatórios.

Se você gostou do blog, curta nossa página no Facebook e se inscreva por e-mail para não perder nenhuma atualização. Não se esqueça de avaliar a postagem logo abaixo, isso é muito importante para sabermos a qualidade do conteúdo que estamos produzindo. 

Até mais.
















Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...